La mia Sapienza

Hoje foi aniversário da cidade de Roma. A caput mundi completou seus 2774 anos e durante todo o dia refleti sobre o significado dessa data nesse ano na minha vidinha.


O mito nos diz que Eneias sobreviveu ao conflito entre gregos e troianos e teve como missão fundar a grande cidade de Roma, centro do mundo ocidental de seu tempo. Nas palavras de Virgílio, a empresa de Eneias permanece viva na história, na literatura e na paisagem, já que até hoje o turismo romano é basicamente pensar sobre a antiguidade dos tempos de Virgílio.


Arma virumque canō, Trōiae quī prīmus ab ōrīs

Ītaliam, fātō profugus, Lāvīniaque vēnit

lītora, multum ille et terrīs iactātus et altō

vī superum saevae memorem Iūnōnis ob īram;

multa quoque et bellō passūs, dum conderet urbem, 5

inferretque deōs Latiō, genus unde Latīnum,

Albānīque patrēs, atque altae moenia Rōmae.


As armas canto e o varão que, fugindo das plagas de Troia

por injunções do Destino, instalou-se na Itália primeiro

e de Lavínio nas praias. A impulso dos deuses por muito

tempo nos mares e em terras vagou sob as iras de Juno,

guerras sem fim sustentou para as bases lançar da cidade

e ao Lácio os deuses trazer — o começo da gente latina,

dos pais albanos primevos e os muros de Roma altanados.

(Eneida — I. 1–7 — Tradução de Carlos Alberto Nunes)


A história de Roma é já muito conhecida, a real e a lendária, então em comemoração ao aniversário da Urbs trago um relato pessoal sobre minha vivência nela e, para isso, falo sobre a Sapienza.


Falar sobre a Sapienza é quase falar sobre minha formação, já que, ao lado da USP, foi a instituição responsável pela minha formação, como docente e como pessoa.



Università La Sapienza di Roma


No início de 2018 submeti meu projeto de estudos para o edital de intercâmbio oferecido pela FFLCH-USP e, naquele ano, meu plano de estudos foi o de maior destaque na minha instituição, até hoje acredito que o motivo tenha sido a coragem.


Estudava italiano fazia apenas um ano e meio e minha professora Adriana Pitarello garantiu que eu conseguiria e me deu uma carta que atestava meu conhecimento de língua italiana em nível B2. Ela acreditou em mim muito mais do que eu mesma, já que minha intenção e meu objetivo não eram estudos em italiano.


Meu objetivo era, e sempre foi, na verdade, estudar Letras Clássicas na primeira universidade a ter uma graduação, uma pós graduação e um estudo profundo de Letras Clássicas, uma das mais antigas e tradicionais do mundo.


Meu destacado plano de estudos tinha como ponto central o estudo de literatura clássica e língua latina e as matéria escolhidas foram 3, uma de linguística aplicada em dialetologia italiana, escolhida apenas pela aventura, literatura latina, um estudo detalhado do De rerum natura de Lucrécio.


A última era a mais estranha, pois era Filologia Latina, uma disciplina oferecida aos pós graduandos, na laurea magistrale, quase uma pós latu sensu como a nossa aqui no Brasil. Até hoje me pergunto o que fez o coordenador de intercâmbio da FFLCH não barrar tamanha ousadia.



Início do De rerum natura


Filologia é, em modo grosseiro, o estudo da tradição textual, desde seus manuscritos até seu impacto histórico. Essa disciplina foi ministrada por uma professora extremamente simpática que adorou ver o interesse de uma jovenzinha brasileira nas suas explicações sobre comentários de manuscritos em latim.


A dificuldade esteve mesmo na disciplina de literatura, de graduação básica em Letras Clássicas, com mais de 100 alunos na aula. Assim que decidi estudar o De rerum natura, pedi ajuda a um professor muito querido e ele me enviou uma cópia da obra em inglês e li antes que as aulas tivessem início e na segunda semana em terras italianas os 6 livros estavam lidos pela primeira vez, compreendidos não tanto, mas lidos, estavam.


Para minha surpresa, a única estrangeira naquela centena de alunos, era necessária uma prova de proficiência em latim clássico antes do início das aulas, coisa que nos meus 4 anos de estudos de latim na USP nunca me tinha sido solicitado. Fui simpática até o professor perguntar se era mesmo necessário e ele só sorriu, me deu um parágafo do Pro sestio de Cícero (discurso que não conhecia e nem sei muito bem do que se trata) e disse que eu teria 2 horas para traduzir em italiano e comentar a gramática das 8 palavras em negrito.


Sentei e fiz, né… Não tive muita escolha.



A carinha do Cícero


Duas semanas depois ele devolveu a prova inteiramente em vermelho e deu a aula sobre o De rerum natura e, ao final, disse que quem tivesse uma nota inferior a 6 não poderia realizar o exame final. Eu, insistente e corajosa que sou, fui até a sala dele em um horário marcado pela internet e perguntei como poderia estudar para o exame final, já que minha universidade tinha me enviado à Sapienza como uma das melhores estudantes da faculdade e que precisava ao menos tentar realizar o exame.


O velho me olhou de cima abaixo, me devolveu a prova e disse:

Dio mio, se você é a melhor entre os brasileiros realmente seu país é uma vergonha mesmo. Eu posso te deixar fazer o exame, mas tenho profunda certeza de que você não vai superá-lo. A senhorita deve ler 1500 versos do De rerum natura e eu posso te perguntar oralmente sobre qualquer um deles durante o exame e você deve traduzí-lo e explicá-lo em um italiano perfeito. Pode fazer, mas garanto que você não passa. Na verdade, nem sei o que você veio fazer aqui. PRÓXIMO.


Saí da sala pensando que teria que devolver dinheiro pra USP o dinheiro que recebi, dinheiro que eu nem tinha, já que estava na Europa… Bom, minha escolha foi saber que o “não” eu já tinha e que o melhor era a fazer era buscar uma humilhação ainda maior.


Assisti todas as aulas desse professor sentada no chão, bem na frente dele, anotando todos os comentários sobre cada um dos versos mencionados do De rerum natura, bastante ousada. De qualquer modo, se reprovasse, ia voltar pro Brasil tendo feito um curso inteiro, de 80 horas, sobre o De rerum natura, coisa que não temos por aqui.


Durante os 5 meses de estudo na Sapienza dormia de 4 a 5 horas por dia, já que além dessa matéria difícil, tinha a dos manuscritos e a de linguística aplicada. No fim de janeiro, época das provas finais, todas entrevistas com os professores valendo de 0 a 30, sendo o mínimo 18, tinha um caderno de 10 matérias inteiro preenchido.



Anotações totais


Fui para o exame do De rerum natura sem dormir e o professor parecia até simpático, perguntou como eu estava e se gostaria de me sentar. Sentei e respondi todas as perguntas com muita calma, muita paz de espírito sabendo que não ia passar mesmo. No total, ele acabou perguntando sobre 4 passagens sem mencionar um verso específico para traduzir e, como respondi tudo pausada e calmamente, ele me perguntou:

Qual passagem do De rerum natura te impactou mais durante sua leitura?


Respondi sobre a origem da linguagem e a maneira como isso é descrito pela primeira vez em língua latina. Ele pediu para que eu traduzisse e me estendeu o livro e eu recusei, abri meu caderno de 10 matérias no verso mencionado e traduzi. Ele levantou, eu levantei em seguida, e ele me parabenizou ao apertar minha mão. Disse que o único problema no meu exame tinha sido um deslize no italiano, uma confusão entre as preposições da e di. Disse estar surpreso, mas não poderia jamais me dar nota máxima por ser estrangeira. Saí com 28 e chorei o resto do dia.



Anotações que são quase piores que os manuscritos da idade média


Agradeço todos os dias a presença de todos os professores de latim que tive na Universidade de São Paulo e que fizeram de mim a Latinista que fui quando estive diante desse professor xenófobo e da que sou hoje em dia, em constante formação.

Voltei para cá, pra minha cidade Itaquaquecetuba, e trouxe comigo as traduções de De rerum natura que hoje posuem menção honrosa como melhor pesquisa de graduação da FFLCH-USP em 2020.


Trago no meu braço direito a sabedoria de Lucrécio e de sua origem da linguagem e seus ensinamentos sobre o epicurismo, a busca pelo prazer e a ausêcia do medo, já que o mantive em mim durante todo o tempo que pude. Internalizei versos incríveis de profundo ensinamento poético e filosófico, apesar de toda adversidade imposta por ser quem sou, jovem, brasileira, pequena.



Única foto que tenho da tatuagem é a da tatuadora, pois nunca consegui tirar uma foto bonita do meu próprio braço, perdão.


Trago a Sapienza comigo como um grande ensinamento e como uma grande passagem na minha formação e por isso digo que essa é só minha segunda universidade.


Minha universidade do coração mesmo é a USP, já que foi aquela Studium Urbis a minha casa durante meus 5 anos de estudos presenciais.


Sempre tive professores de latim e de italiano muito amáveis e muito compreensivos comigo e que muitas vezes faziam muito mais do que se espera de um professor. Excelência acadêmica, na vida real, nem significa nada e por isso agradeço a eles como pessoas, como amigos e como Mestres, como exemplos. Tive grandes professores que fizeram de mim alguém grande. Agradeço tambem ao espaço da USP, que foi minha casa, minha grande pasasgem para a vida adulta, já que entrei lá com 17 anos e lá descobri tudo o que podia ser descoberto naquele espaço e naquele tempo.


Grandes crises são frequentes, e todos sabemos que são, mas Lucrécio me ensinou a não temer, não desacreditar e fazer tudo por puro prazer. Sempre funcionou.


Gratias, Magistri Mei. Gratias, Urbs. Gratias, Sapientia. Gratias, Lucretie.




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